Crédito da Foto: Arquivo/Assessoria
O apelido de "Fórmula-1 Caipira" faz jus à essência do Autocross. Muito mais do que uma competição de velocidade, a modalidade reúne produtores rurais de algumas das principais regiões agrícolas do país, transformando as pistas em um ponto de encontro do agronegócio brasileiro.
Na temporada de 2026, iniciada em maio, em Luís Eduardo Magalhães (BA), dos 37 pilotos inscritos, cerca de 90% têm sua principal atividade ligada ao campo. São produtores de soja, milho, algodão, pecuaristas e empresários do setor que dividem o tempo entre a rotina nas fazendas e a paixão pelo automobilismo.
Segundo o CEO do Autocross Brasil, Gian Pasqualli, praticamente todo o grid possui ligação direta com o agronegócio. Os competidores são, em sua maioria, de Mato Grosso, Goiás, Bahia e Mato Grosso do Sul, estados que concentram algumas das maiores áreas de produção agrícola do mundo.
Juntos, esses pilotos administram mais de dois milhões de hectares cultivados, fazendo de cada etapa do campeonato um verdadeiro encontro entre grandes nomes do setor agropecuário.
A forte presença do agro também se repete no kartcross. A etapa única do Campeonato Brasileiro da modalidade, marcada para os dias 15, 16 e 17 de agosto, em Rio Verde (GO), contará com aproximadamente 75% dos pilotos ligados ao agronegócio. A procura foi tão grande que as 80 vagas disponíveis foram preenchidas em apenas 37 minutos.
Das fazendas para as pistas
Entre os competidores está o mato-grossense Marlon Fedrizzi, produtor rural com propriedades em Campo Novo do Parecis e Brasnorte. Nas fazendas, cultiva soja, algodão, milho, trigo, feijão, cana-de-açúcar e também atua na pecuária.
Para ele, as corridas representam uma forma de aliviar a pressão do dia a dia no campo.
"Todo agricultor participa da formação e do desenvolvimento da sociedade. É muito gratificante. O automobilismo acaba sendo uma maneira de desligar um pouco da rotina e viver outra paixão", afirma.
Quem compartilha desse sentimento é Valdir Roque Jacobowski, de 55 anos. Agricultor em Campo Novo do Parecis, ele cultiva soja, milho e algodão, além de criar gado de corte. Competindo há mais de duas décadas, define o esporte como uma paixão.
"Quando a gente entra na gaiola, se desliga do mundo. Faz 21 anos que comecei e nunca mais consegui parar", comenta, em tom bem-humorado.
Na região de Primavera do Leste, Lucas Locatelli também divide o tempo entre as lavouras de soja e milho e o automobilismo. Além do autocross, ele compete ao lado do pai, Renato Locatelli, na Porsche Cup.
Segundo o piloto, agricultura e automobilismo possuem desafios semelhantes.
"Os dois exigem decisões rápidas e convivem com a imprevisibilidade. As corridas funcionam como uma válvula de escape e ainda proporcionam a oportunidade de dividir a pista com meu pai", destaca.
Campeonato movimenta economia e fortalece o agro
O calendário nacional do Autocross percorre importantes polos agrícolas brasileiros. Após a abertura na Bahia, o campeonato passa por Rio Verde (GO), Tapurah (MT), em setembro, e encerra a temporada em novembro, no Autódromo Internacional de Mato Grosso, em Cuiabá.
Cada etapa reúne pilotos, equipes, familiares e torcedores, além de movimentar hotéis, restaurantes, oficinas, empresas de logística e diversos serviços nas cidades-sede.
Os eventos também se transformam em vitrines para o agronegócio. É comum a presença de expositores de máquinas agrícolas, empresas de sementes, fertilizantes, defensivos, instituições financeiras e outras marcas ligadas ao setor, que aproveitam o ambiente para fortalecer relacionamentos e fechar negócios.
Investimento e estrutura
Os carros utilizados na categoria, conhecidos como "gaiolas", possuem chassi tubular com estrutura de proteção, pesam entre 700 e 735 quilos e utilizam motor Volkswagen AP 1.6 aspirado movido a etanol, com potência entre 150 e 160 cavalos. Mesmo em pistas de terra, os veículos ultrapassam facilmente os 160 km/h.
O investimento para montar um carro varia entre R$ 80 mil e R$ 150 mil, dependendo da preparação mecânica.
Além das disputas, a organização monta uma estrutura completa em cada etapa, com arquibancadas, camarotes, praça de alimentação, lounges, sistema de som, climatização e toda a logística necessária para transportar os carros e preparar os circuitos temporários.
O crescimento da modalidade também impulsionou investimentos na infraestrutura esportiva. Um dos principais exemplos é o Autódromo Internacional de Mato Grosso, em Cuiabá, inaugurado recentemente dentro dos padrões da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), consolidando o estado como uma das principais referências do automobilismo nacional.









